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segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Colônia Nova Itália, atual bairro de Colônia

(Vista parcial do bairro de Colônia - São João Batista (SC) em Brasil - Fonte desconhecida)

Os moradores da pequena cidade de São João Batista (SC) estão acostumados a ouvir comentários não muito elegantes sobre o bairro que atualmente se chama Colônia. Entretanto, as pessoas que costumam chamar essa localidade de “interiorzinho” e até mesmo de “fim de mundo” estão um pouquinho mal informadas.

Primeiramente, não se deve julgar qualquer local que seja, afinal quem somos nós para fazer isso?! Mas, em segundo lugar, é necessário conhecer algo para depois expressar sua opinião sobre tal. E, a meu ver, quem menospreza esse bairro provavelmente nunca investigou sua trajetória, tão pouco deve saber que lá se formou a primeira vila catarinense de colonização italiana.

Os primeiros italianos trazidos para Santa Catarina chegaram aqui em 1836 vindos da cidade de Gênova com o auxílio de Carlo Demaria. Eles estavam em busca de uma vida melhor, uma vez que a situação italiana era muito difícil devido a luta pela unificação do país. Na época, as terras de Colônia se chamavam Nova Itália e ofereciam terras férteis regadas pelo rio Tijucas.

Eram cerca de 180 italianos originários da ilha de Sardenha ou da região de Ligúria que carregavam os sobrenomes: Pesco, Riolfo, Alerto, Caviglia, Montardo, Sardo, Gambelli, Buzano,  Mattia, Pislori, Benotti, Grosso, Rilla Zunino, Formento, Ratto, Cognacco, Gnecos, Demoro, Nocette e Pison. As terras eram dividas conforme o número de integrantes de cada família que ganhariam sua posse definitiva após trabalharem dez anos na propriedade.


A vida dos recém-chegados não era nada fácil. Era preciso cultivar algodão para confeccionar suas roupas, cultivar mamona para usar o óleo no acendimento dos lampiões, fabricar canoas para realizar os casórios e produzir dentaduras para aplicar sobre os dentes quebrados que não podiam ser extraídos. Mas, entre todas as dificuldades enfrentadas, a mais cruel era o ataque dos bugres:

Mal a colônia se iniciava, já em 1837, foi atacada pelos bugres, senhores daquelas terras. Os sacrificados pela fúria dos bugres foram Luigi Ratto, Giovanni Benotti, Giovanni Rilla e Bernardo Gambelli mais a mulher e um filho. [...] Como se não bastasse, em 1838, a colônia sofreu uma grande enchente no período de 9 a 11 de março que prejudicou muito a lavoura. [...] Em 1839, houve novo ataque dos bugres, desta feita matando 3 homens e 5 mulheres, deixando mutiladas 3 crianças [...]”. (MAURICI, 2008)

Em meio a essa vida árdua, os primeiros colonos foram construindo esse pequeno bairro enquanto sobreviviam da agricultura, do corte de madeira nativa e da produção de engenhos de açúcar e de farinha de trigo. Foi exatamente nesse lugarzinho simplório que o primeiro calçado batistense foi confeccionado pelo Sr. Manoel Lourenço Peixer.

Será que algum dia o Sr. Manoel se deu conta de seu pioneirismo? A sua iniciativa de transformar um tamanco em sapato de couro após ver um desses em Florianópolis pode ter sido algo sutil para ele. Mas, atualmente, é exatamente da produção desse objeto que sobrevive grande maioria dos moradores de São João Batista, o calçado.

Graças a outro homem simples, mas de muita responsabilidade, a pequena localidade de Colônia cresceu cada vez mais. Lucas Boiteux foi o segundo administrador da localidade e foi ele quem providenciou um grupo policial para conter os bugres, várias estradas para facilitar o comércio, a construção de uma pequena escola para os meninos, entre outras decisões que fizeram a colônia prosperar consideravelmente.

Esse é apenas um pequeno resumo da trajetória deste pequeno grande bairro, mas, se você ficou ainda mais curioso e deseja obter mais detalhes, leia a obra intitulada São João Baptista do Alto Tijucas Grande de autoria da escritora batistense Darci de Brito Maurici. Espero que leia o livro por completo e registre sua opinião aqui nos comentários do blog.

Até mais!
  

São João Batista (SC), os primeiros ocupantes


(Bugres catarinenses - Fonte desconhecida)

A aconchegante cidade de São João Batista, localizada no estado de Santa Catarina, vem recebendo um número significativo de moradores nos últimos anos. A maioria deles chega aqui em busca do sucesso profissional oferecido pela grande quantidade de indústrias de calçados que crescem no mercado nacional e também internacional.

O que podemos nos questionar é: quem foram os primeiros moradores desse município tão promissor? A história nos relata que os primeiros ocupantes foram trazidos das ilhas portuguesas dos Açores através do incentivo dos reis portugueses entre os séculos XVII e XX que queriam ocupar o sul brasileiro para não perdê-lo para os espanhóis.

Para deixar sua terra e vir morar na pequena localidade de São João, era oferecido aos açorianos uma porção de dinheiro, terras, instrumentos de trabalho, sementes, gado e armas de fogo. Durante o alistamento os casais tinham prioridade porque garantiam o crescimento populacional. Aos poucos, famílias inteiras chegavam aos portos de Florianópolis para seguirem seu caminho nos carros de boi até as terras batistenses.

Por volta de 1838 chegaram os primeiros açorianos que precisaram se adaptar ao novo ambiente, clima e alimentação encontrada. Após o período de adaptação, eles foram deixando diversas tradições que mantemos até hoje, como construções em estilo português, engenhos, presépios, terno de reis, festas juninas, procissão de Corpus Christi, boi de mamão, benzimentos, carnaval, farra do boi, bola de gude, pião, peteca, pular corda, beiju, cuscus, broa de polvilho, entre outras.

Ao mesmo tempo em que chegavam os açorianos incentivados pelo governo, também chegavam os italianos através de diversas empresas de colonização que valorizavam os hábitos de trabalho e persistência do povo da Itália. A viagem até São João Batista era muito difícil, mas, sem dúvida alguma, o maior problema enfrentado pelos açorianos e italianos foi a resistência dos grupos que já viviam em São João Batista desde a pré-história, os bugres.

Os nativos da cidade causavam pânico quando atacavam as vilas dos recém chegados da Europa. Sempre que invadiam os assentamentos era para espalhar o terror através de violência extrema, o que fez muitos imigrantes desistirem de construir sua vida em nossa cidade. Mas devemos nos lembrar que os bugres atacavam os homens brancos motivados pelo medo e a angústia de assistir suas terras sendo invadidas repentinamente.

A solução encontrada pelo governo e fazendeiros foi pagar a homens corajosos para se arriscarem pela mata em busca dos bugres. O bugreiro mais famoso de São João foi Martinho Marcelino de Jesus que com 18 anos iniciou sua  profissão, matar os bugres. Enquanto tentavam se livrar dos nossos bugres, os açorianos e italianos compravam pessoas para trabalharem para eles no solo batistense, os africanos.

Isso mesmo que você pensou, a pequenina São João Batista viveu a escravidão dos negros que conhecemos na escola e nem imaginávamos que tivesse ocorrido tão pertinho da gente. E não foram poucos escravos; o escritor Van Leede afirmou que em 1840 já existiam 190 escravos por aqui, todos registrados em cartório e seguindo uma vida de trabalho árduo sem nenhuma remuneração.

É importante ressaltar que não há indícios de que os escravos batistenses tenham sofrido castigos tão assustadores como ocorria frequentemente nas outras partes do país, inclusive alguns deles receberam de seus donos uma carta de liberdade condicional. Mas não é por causa dessa certa bondade que podemos ignorar ou menosprezar essa triste prática de humilhação humana realizada em nossa cidade.

Se você gostou de conhecer um pouquinho melhor a ocupação da pequena São João Batista, sugiro que leia a obra de Darci de Brito Maurici intitulada São João Baptista do Alto Tijucas Grande da editora e gráfica Odorizzi. Garanto que você  vai se surpreender com as revelações da escritora.

Até mais!

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

São João Batista (SC), o início

(Portal de entrada da cidade de São João Batista em Santa Catarina, Brasil - Acervo pessoal)
Atualmente o município de São João Batista localizado no estado de Santa Catarina é conhecido por seu sucesso empresarial no ramo dos calçados que tem causado muito progresso aos seus moradores. Mas, no passado, nossa cidade era muito pequenina, embora sempre tenha sido um local de povo muito batalhador e responsável.

São João Batista surgiu da audácia de um único homem vindo de São José, o capitão João de Amorim Pereira, que criou uma boa fazenda próximo ao Rio Tijucas em 1834 somente com o apoio de sua família. Graças ao sucesso de João, outros colonizadores vieram morar na localidade que em pouco tempo foi considerada uma freguesia através da Lei Nº 90 de abril de 1838.

A freguesia tinha seu próprio Juiz de Paz, o capitão João,  mas não era independente, pois pertencia ao município da Freguezia de São Miguel. Em 1841 sua posse foi transferida para Porto Bello, até que em 1848 retornou ao poder de São Miguel. Já em 1860 houve a criação do município de São Sebastião de Tijucas, então as freguesias de Porto Bello e São João Batista foram incorporadas a ele.

Somente em 1958 São João Batista se tornou um município independente de Tijucas através da Lei N° 348 de 21 de junho. Porém, até esse dia chegar, os batistenses passaram por uma série de modificações em sua forma de viver nessa terra fértil repleto de madeiras de lei. Estudos indicam que nossa cidade foi formada por imigrantes açorianos e italianos que contaram com o trabalho escravos negros em suas fazendas que frequentemente eram atacadas pelos "índios" locais, os bugres.

No princípio, o rio Tijucas era fundamental para a sobrevivência de todos porque ele facilitava o transporte de mercadorias que eram vendidas em outras localidades. Atrás da atual loja Penhk ficava um dos principais portos de barcaças que saíam daqui repletas de madeira, cana, mandioca, gado, fumo, feijão, milho, entre outros produtos.

Quando os produtos não eram levados até as freguesias mais próximas, os tropeiros vinham para São João descendo a serra carregados de charque, queijo, pinhão, mel de abelha e fumo de corda para trocar aqui por produtos de seu interesse. Para sua comodidade contavam com o apoio das casas do Sr. João Vicente Gomes e do Sr. Benjamim Duarte aonde podiam se alimentar e descansar.

Praticamente todas as famílias batistenses possuíam engenhos de cana ou de farinha, mas aos poucos muitas delas foram se dedicando somente a troca de produtos e passaram a abrir as primeiras casas de comércio de nossa região, algumas delas existem até hoje como a Loja Calcebem do Sr. João Vicente Gomes, o Supermercado Remael do Sr. Walmor Goedert, o Supermercado Puel do Sr. Abílio Puel, entre tantas outras.

Entre todos os estabelecimentos criados, sem dúvida alguma, o que mais fez sucesso foi o Cine São João inaugurado por volta de 1940 pelos irmão Leopoldo e Irineu Campos. O local foi um verdadeiro sucesso exibindo os filmes de uma empresa de Curitiba, que muitas vezes eram criticados pelo vigário. Com a chegada da televisão por volta de 1988/89, o cinema acabou sendo fechado.

Com tanta movimentação surgiu a necessidade de estabelecer as primeiras picas (estradas de barro abertas á mão) para o movimento de pedestres e carroças em 1841, o responsável pelas obras foi Anastácio Pereira. A primeira grande estrada foi traçada entre Nova Trento e Porto Belo passando por Tijucas, ela seria útil para carroças, caminhões e automóveis e foi inaugurada em 27 de abril de 1890.

Em 1918 São João foi agraciada com a construção de sua primeira ponte fabricada com madeira e zinco que permitia a passagem de um veículo por vez. Sua inauguração foi somente no ano de 1921. E assim, aos poucos, a pequena freguesia do capitão João de Amorim Pereira foi se transformando nessa cidade promissora que não para de crescer.

Se você gostou de conhecer um pouquinho sobre a trajetória da pequena São João Batista, sugiro que leia a obra de Darci de Brito Maurici intitulada São João Baptista do Alto Tijucas Grande da editora e gráfica Odorizzi. Você  vai se surpreender com as revelações da escritora.

Até mais!

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

A Revolução de 1930 e o Vale do Rio Tijucas

Com toda certeza você aprendeu na escola que durante os anos de 1894 e 1930 a política brasileira foi dominada por dois poderosos estados brasileiros, São Paulo e Minas Gerais. Esse período era conhecido como Política das Oligarquias, mas também foi apelidado de República do Café com Leite já que a maioria dos presidentes eram cafeicultores de SP ou criadores de gado de MG, graças a um acordo político estabelecido entre eles.

O fato é que em 1930, segundo o acordo entre os dois estados, o presidente eleito deveria ser o apoiado por Minas, entretanto isso não aconteceu porque o estado de São Paulo fraudou as eleições oferecendo o mais importante cargo político brasileiro para Júlio Prestes. O candidato derrotado ilegalmente, Getúlio Vargas, se uniu aos militares brasileiros organizando a Revolução de 1930 que partiria de seu estado, Rio Grande do Sul, até a capital do país, o Rio de Janeiro, aonde pretendia ocupar o cargo a qualquer custo.

O que provavelmente não lhe ensinaram nos bancos escolares é que, durante sua jornada rumo ao poder,  Vargas invadiu diversas cidades usando muita violência e obrigando milhares de jovens a se unirem a seu grupo armado em direção ao Rio. Outro detalhe que com certeza não lhe repassaram é que três grupos getulistas passaram por Santa Catarina espalhando o terror em cidadezinhas pequenas que sequer entendiam muito ao certo tudo o que estava acontecendo no cenário político brasileiro, tão pouco haviam tomado alguma posição favorável ou contrária á Revolução.

Tijucas, que abrigava famílias importantes para o cenário político, foi rapidamente dominada tendo seus prefeito e delegado substituídos por gente de confiança de Vargas enquanto a população fugia durante a calada da noite com medo do que poderia lhes acontecer. Em São João Batista os revolucionários cativaram dois irmãos que ingressaram em suas tropas e revelaram orgulho por ter participado desse importante movimento brasileiro, eram eles Hercílio João Fraga e Gerson Fraga. No entanto, em nosso Vale do Rio Tijucas, a cidade que se destacou nesse período foi Nova Trento.

Você deve imaginar que os trentinos tenham se destacado pela valentia ao se juntarem ou combaterem as tropas de Getúlio, certo? Errado. Os colonos da pequena cidade trentina se destacaram por sua engenhosidade. Quando souberam da aproximação dos revoltosos decidiram fugir para trás do morro Bezenelo e, como havia chovido muito nos últimos dias, tiveram a ideia genial de subir o local de costas. Dessa maneira, quando as tropas de Vargas viram o morro, logo imaginaram que as pessoas haviam descido o local e estavam no centro de Nova Trento.

Esse exemplo de estratégia de guerra é facilmente compreensível levando-se em consideração que a maioria dos colonizadores trentinos já haviam vindo para Santa Catarina para se refugiarem da terrível situação que assombrava a Itália, tudo o que desejavam era a paz e a obtiveram de maneira muito sábia. Isso é somente um pouco do contexto de nossas pequenas cidades catarinenses durante o grande momento histórico do fim da República das Oligarquias e consequente ascensão de Getúlio através da Revolução de 1930.

Caso você tenha se interessado pelo assunto, sugiro que busque mais informações no sensacional livro intitulado Histórias da Vida Real. Uma obra de muita sabedoria popular produzida por uma personalidade incrível de nosso estado catarinense, o Dr. Wilian Duarte da Silva. Leia a obra e poste seus comentários para debatermos mais sobre essa importante obra a cerca de nossa história regional.
Até mais!

Vilazinha de Fernandes, doces lembranças

(Capa da obra Vilazinha de Fernandes: doces lembranças - Acervo pessoal)

Em novembro de 2014 o escritor Ademar Campos nascido em São João Batista e residente em Tijucas, lançou um livro de memórias intitulado Vilazinha de Fernandes: doces lembranças. A obra contou com a colaboração de alguns colegas do autor, da prefeitura de São João Batista e do Instituto Mathilde Bayer.

O mais interessante durante a leitura é perceber a pesquisa detalhista realizada sobre o modo de vida dos fundadores do bairro de Fernandes, localizado no interior da cidade de São João Batista (SC). As famílias precursoras são citadas com uma riqueza de detalhes que começa em seu ramo de trabalho e termina nos próprios vestuários e costumes diários dos integrantes mais singulares.

Algumas pessoas nascidas na localidade tiveram uma pequena biografia exposta para ressaltar sua importância social, outras foram valorizadas com fotos familiares, enquanto que as mais pitorescas tiveram seu trabalho explicado em detalhes, como foi o caso da benzedeira Ignes Barnabé Serpa que teve seus benzimentos repassados ao escritor por uma de suas netas.

Eis a maior façanha desse pequeno livro, usar a memória e as fontes orais para recontar a micro história regional revelando a vida dos pequenos personagens e quebrando completamente com o paradigma mundial de exaltar somente os grandes "heróis". Uma iniciativa incrivelmente ousada em nossa região que segue o rumo da nova forma de contar história que está sendo fixada no mundo.

Além de trazer a tona o cotidiano, os costumes e as crenças dos carneirinhos (como eram chamados os moradores do bairro de Fernandes), o texto conta com pequenos causos populares da cidade de Canelinha e é encerrado com a participação brilhante de uma adolescente tijucana que revela as principais crendices populares de sua cidade natal.

Em resumo, esse livro singelo em tamanho pode ser considerado um imenso salto na História de São João Batista e demais localidades relacionadas. Durante a leitura é possível perceber que alguns erros ortográficos passaram despercebidos e que infelizmente não houve muito investimento na parte gráfica,  mas nada que prejudique o valor real deste trabalho tão delicado envolto em memórias tão doces.

Indico a leitura da obra por completo para que deixe sua opinião nos comentários abaixo e me ajude a divulgar o livro de meu colega querido. 
Até mais!

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Salvador Allende

(Caricatura de Salvador Allende - Autor desconhecido)
Salvador Allende Gossens nasceu em Valparaíso numa família rica aonde iniciou seus hábitos de equitação, natação, tiro ao alvo e passeio de veleiro. Ao amadurecer ingressou para a ordem secreta de um grupo maçônico seguindo os exemplos de seus pai e avô, passou a usar óculos de aros grossos, entrou num curso de medicina em 1926 e assumiu um discurso radical a favor do marxismo-lenista quando conheceu um sapateiro italiano anarquista.

Seu fanatismo pelo modelo político socialista era mantido até mesmo dentro de casa aonde chamava suas próprias filhas de "companheira Carmen", "companheira Isabel"... Ninguém duvidava do fato de que Allende era um democrata convicto, assim ele se tornou o primeiro presidente marxista eleito pelo povo por 36% dos votos a seu favor. Ao assumir o cargo, Allende assinou um juramento prometendo respeitar o Estado, as Forças Armadas, a liberdade de opinião, a pluralidade sindical, a autonomia das universidades e a indenização aos proprietários de terras expropriadas.

Em pouco tempo ele debochou desse documento passando a ignorar todas as suas promessas, tanto que deixou clara a sua intenção dentro do governo do Chile: "estabelecer um Estado revolucionário que possa libertar o Chile da dependência e do atraso econômico e cultural e iniciar um processo de socialismo. A violência revolucionária é inevitável e legítima [...]". Assim, as pessoas que foram morar em terras chilenas para fugir da ditadura brasileira, passaram a assistir Allende criando grupos paramilitares apoiados por Cuba.

Rapidamente os seguidores de Allende passaram a tomar fazendas e fábricas usando a força das armas e colocando uma faixa nos portões: "Essa propriedade foi tomada pelo povo.". Os donos dos locais deveriam ir embora, mas muitos deles foram assassinados antes disso, alguns se suicidaram e outros morreram de ataques cardíacos. Entre novembro de 1970 e abril de 1972, 1.762 fazendas foram invadidas pelos grupos armados do presidente. O povo chileno começava a vivenciar uma das fases mais tristes de seu país.

Jornais e rádios começaram a ser atacados ou comprados pelo governo de Allende que passou a controlar a venda de antenas de transmissão, tinta e óleo para regular as notícias publicadas no país. Para se proteger da reação popular, o presidente criou uma guarda pessoal chamada de GAP e pretendia criar uma Escola Nacional Unificada aonde crianças e jovens seriam educados segundo os conceitos de uma sociedade não capitalista com o intuito de não se voltarem contra as decisões governamentais.

Os canais de televisão também foram tomados pelo governo assim como o cinema que só poderia exibir filmes aprovados pela Chile Films. Em três anos a produção industrial caiu 12%, a agrícola 30%, a de carne bovina 20% e a de cobre 2%. A área de terra cultivada diminuiu em um quinto, as colheitas de arroz caiu 20% e a de trigo diminuiu em um terço. As reservas internacionais caíram de 400 milhões de dólares para 0. A população teve de aceitar o aumento de 1.000% nos preços e sofrer com o sumiço dos produtos nas prateleira do comércio.

Para controlar o que as pessoas podiam comprar, Allende criou as Juntas de Abastecimento e Preço que distribuíam os produtos para o povo pelo preço fixado pelo presidente e, para piorar, cada pessoa recebeu um cartão de racionamento que regulava a quantidade de cada produto que a pessoa podia comprar para sua família. Perante essa situação, muitos pais de famílias assistindo seus filhos passarem necessidade começaram a desviar produtos das empresas em que trabalhavam.

O desvio não era difícil, uma vez que o presidente havia proibido a existência de cargos mais importantes dentro das empresas extinguindo a existência de chefes que fiscalizassem os funcionários. Dentro da empresa todos eram iguais e não tinham como punir os colegas que desviassem ou roubassem alguma coisa dentro do ambiente de trabalho. Ao que tudo indicava, a única coisa que ainda funcionava no Chile eram as fábricas de bandeiras e ao perceber essa situação o presidente foi até a União Soviética pedir ajuda econômica, mas teve o pedido negado.

Allende acreditava que alguns tipos humanos teriam de ser eliminados para evitar alguns problemas dentro da sociedade. Ele criou uma tese com duas categorias de vagabundos, os de origem étnica como judeus e os de origem econômica como mendigos, e sugeriu em 1939 um Projeto de Lei para a Esterilizaçãção dos Alienados completamente baseado nas ideias de eugenia usadas por Hitler na Alemanha. Quando uma pessoa era indicada para a esterilização ela ocorreria em no máximo 30 dias e, caso a família se negasse a aceitar a decisão, o serviço seria feito com o auxílio da polícia.

Felizmente, esse projeto não foi aceito por muitos médicos de renome e acabou abandonado antes mesmo de ser apresentado ao Parlamento. Mesmo com essa oposição a suas ideias nazista, Allende se negou a expulsar Walter Rauff do Chile, mesmo sabendo que ele era o criador dos caminhões de gás que exterminaram meio milhão de pessoas na Europa por desejo do governo alemão. Mas o projeto que mais chamou atenção durante o governo de Allende foi o "Plano Z".

O Plano Z estava marcado para 25 de agosto de 1973 e devia deter oficiais e pessoas da oposição já fichados pelo governo para levá-los a lugares de retenção e eliminação. O plano também incluía a sabotagem de aeroportos, pontes, ferrovias, vias de comunicação e estradas para isolar as cidades e impedir um possível contra golpe. O plano não chegou a ser colocado em prática por falta de tempo porque os chilenos já começavam a criar complicações para o presidente, principalmente as mulheres que organizavam greves batendo panelas nas ruas e jogando milho nos pátios dos quartéis.

A atitude feminina sobre os quartéis do exército chileno insinuavam que os militares eram covardes feito galinhas e que por esse motivo não tomavam nenhuma atitude contra Allende. O que de fato não era completamente equivocado porque os militares só se manisfestaram contra o governo quando o presidente ordenou a prisão dos 63 maiores empresários do país. O general que organizou o ataque contra Salvador Allende foi justamente um de seus homens de confiança, Augusto Pinochet

O próprio presidente afirmava que não era o presidente dos chilenos, mas sim de um terço da população que o colocou no poder. Como ele estava longe de agradar o povo, a Câmara dos Deputados também era composta por pessoas que estavam insatisfeitas com a presidência e acabaram declarando que o governo de Allende era ilegal com 87 votos.  No dia 11 de setembro de 1973, ás duas horas da tarde, Salvador Allende se suicidou com um tiro de fuzil AK-47 na cabeça que havia ganho de presente de Fidel Castro.

Pinochet acabou assumindo o poder do Chile e instaurando uma ditadura que durou 17 anos e assombrou a população de uma tal maneira que Allende passou a ser considerado um bom homem quando comparado a ele. Desta maneira nosso personagem passou a ser considerado um sonhador, um homem que queria tornar seu país um local mais justo redistribuindo terras e destruindo a classe dos patrões. Mas será que é justo lembrá-lo como um idealizador comunista mesmo tendo cometido tantos erros graves?

Creio que o mais correto seja alertar o mundo sobre sua face sanguinária. Então, caso você tenha se interessado por esse texto e queira saber mais a respeito desse importante personagem americano, sugiro que consulte o livro Guia Politicamente Incorreto da América Latina escrito por Leandro Narloch e Duda TeixeiraEspero que formule sua opinião a respeito de Allende e deixe nos cometários abaixo para que possamos saber cada vez mais sobre esse homem tão marcante na história chilena.

Até mais!

sábado, 22 de novembro de 2014

Pancho Villa, o queridinho de Hollywood

(Fotografia de Pancho Villa, Fonte Desconhecida)

O mexicano Doroteo Arango nascido em 05 de junho de 1878 ganhou o codinome de Pancho Villa após ingressar num grupo de bandoleiros armados, tudo indica que isso aconteceu por vingança após um abuso sofrido por sua irmã. O fato é que, depois de ser recrutado para o grupo de Francisco Madero, Pancho acabou se tornando uma espécie de Robin Hood admirado pelos camponeses que se encontravam em péssima situação financeira graças ao governo presidencial do ditador Porfírio Dias.

Seu papel durante a Revolução Mexicana é citado em todos os livros educacionais que compõem as bibliotecas das escolas americanas, neles Pancho é apresentado como um herói libertador que lutou por seu país contra um presidente impiedoso e a favor dos pobres. Muitos filmes já foram produzidos enfatizando sua ânsia de justiça, num deles o próprio Pancho interpretou seu papel, a obra se chamava The Life of Pancho Villa e foi produzida pela Mutual Films.

Para valorizar as cenas, a verdadeira roupa de Pancho que se parecia muito com a de um simples cangaceiro, acabou sendo substituída por um elegante traje militar. Ele gostou tanto da nova vestimenta que passou a usá-la em seu dia-a-dia de grande fazendeiro para atacar e fuzilar impiedosamente qualquer pessoa que atravessasse seu caminho enquanto utilizava a justificativa de estar realizando a reforma agrária tão necessitada nas terras mexicanas.

Que Pancho invadiu diversas fazendas durante os dez anos da revolução não há dúvidas, mas a lenda de que dividia essas terras entre os pobres nunca foi comprovada. Ele chegou a criar um decreto de distribuição dos latifúndios confiscados, mas os únicos que realmente receberam lotes foram os soldados de alta patente de suas tropas. Parte do dinheiro gerado nessas propriedades era destinado ao Estado, mas o lucro de muitas deles ficou somente nas mãos de militares, generais e de Pancho.

Seus empregados afirmavam que recebiam muito pouco e eram frequentemente ameaçados de morte caso reclamassem de seus salários ou da rígida disciplina militar que deviam seguir. Suas tropas eram formadas por jovens recrutados a força sobre a ameaça de fuzilamento, esses adolescentes acabavam se entregando ao vício do fumo da maconha para conseguir relaxar após as batalhas que enfrentavam a contragosto. 

Eis algumas façanhas do herói mexicano que são excluídas dos materiais educacionais e das produções cinematográficas por não serem agradáveis nem combinar com o perfil de um justiceiro social. Mas são informações tão verdadeiras quanto o fato de Pancho ser um admirador da cultura norte americana ao ponto de manter amizades e negócios com as pessoas mais poderosas dos Estados Unidos da América, o país que ele acusava de popularizar o sistema mais opressor da sociedade: o capitalismo.

Se você gostou das informações desse post e deseja saber mais sobre essa personalidade polêmica, sugiro a leitura do livro Guia Politicamente Incorreto da América Latina de Leandro Narloch e Duda Teixeira. Sinta-se a vontade para deixar sua opinião nos comentários abaixo, até mais!

segunda-feira, 31 de março de 2014

Perón e Evita

(Perón e Evita durante discurso político)
Perón e Evita foram grandes representantes de uma política assistencialista dedicada a conquistar eleitores utilizando o favorecimento econômico. Até hoje, seus nomes são lembrados carinhosamente pela população de baixa renda argentina. Mas, logicamente, nem todas as suas atitudes foram frutos de uma benevolência desinteressada. Confira o lado perverso do governo peronista:

Juan Domingos Perón governou a Argentina entre 1946 e 1955, e mais tarde entre 1973 e 1974. Suas decisões acabaram parando a economia do país que, na época, era o 9º no ranking mundial comercial, o único da América Latina a possuir metrô, contava com a melhor rede escolar do continente, possuía grandes reservas de petróleo na Patagônia e uma renda superior à dos Estados Unidos da América e da Inglaterra. Buenos Aires era só cultura e dinheiro, tão encantadora quanto Paris ou Nova York, mas tudo isso foi destruído pela ganância de Perón.

Durante a 2ª Guerra Mundial, Perón foi até a Europa exercendo a função militar de decidir em qual lado a Argentina ficaria. Voltou de viagem ao lado do Eixo e completamente apaixonado pelas ideias de Hitler e Benito Mussolini, tanto que permitiu que alguns nazistas e fascistas se refugiassem no solo argentino.

Para evitar problemas com a população e liderá-la facilmente, o presidente "vestiu a camisa" dos trabalhadores. Ele deu tantos aumentos e dificultou tanto a demissão que os funcionários começaram a trabalhar dois dias e folgar um, pois sabiam que não poderiam ser punidos por seu patrão. As empresas ainda sofriam com a ameaça de estatização, por isso muitas marcas foram parando a produção ou mecanizando o processo, o que provocou um sério aumento nos preços gerando alta inflação.

No departamento rural, Perón criou o IAPI que pagava muito pouco aos produtores argentinos por suas mercadorias e revendia-os a preços absurdos para outros países, isso até perder sua clientela. Investidores estrangeiros não quiseram mais investir no país, assim o presidente comprou as indústrias de base pagando caríssimo por elas e deixando-as de lado, além de intervir até em empresas particulares. Nas escolas, os livros ensinavam à ler e escrever com frases como: Perón nos ama!

O povo se mantinha fiel a Perón, tanto que, em 17 de outubro de 1945, milhares de trabalhadores "descamisados" foram até a Casa Rosa, onde ele estava detido por militares, para exigir sua libertação. Saindo dali ele se tornou vice-presidente e casou-se com Eva Duarte (Evita), uma atriz sem fama que começou a dar dinheiro para os pobres e construir fundações beneficientes com seu próprio nome. Ela discursava contra a ganância capitalista que incomodava o governo de seu marido, mas possuía joias equivalentes à 19 milhões de pesos.

Em 1946, quando Perón venceu as eleições presidenciais, colocou o país em favor de uma guerra que poderia acontecer. Dois anos mais tarde, instaurou o desacato e a censura, além de autorizar as pessoas a matarem qualquer pessoa que criticasse seu governo, assim as guerrilhas tomaram as ruas do país. Em 1952, com a morte de Evita, é criada a UES para entreter o presidente que passou a se divertir em público com estudantes que simbolizavam sua farra e gastos excessivos.

Após 20 anos afastado do governo, Perón consegue se reeleger, mas voltou ao poder apresentando os mesmos problemas administrativos. Morreu aos 78 anos no dia primeiro de julho de 1974, deixando o governo para sua vice-presidente e atual esposa, Isabelita

Se você gostou das informações desse post, confira mais detalhes lendo o livro Guia Politicamente Incorreto da América Latina de Leandro Narloch e Duda Teixeira. Sinta-se a vontade para deixar sua opinião nos comentários abaixo, até mais!

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Independência do Haiti

(Cidadela Laferrièra, fortaleza construída durante o governo do primeiro rei haitiano, Henri I)

O território que hoje compreende o Haiti, antigo São Domingos, foi descoberto e colonizado inicialmente pelos espanhóis, mas o país que realmente explorou essas terras foi a França. Por volta do século XVIII as grandes plantations da região produziam 40% de todo o açúcar vendido no mundo, muito mais do que era produzido no Brasil que possuía 300 vezes mais espaço físico.

São Domingos era uma riquíssima colônia, as melhores peças de teatro vinham diretamente da França para o tetro da maior cidade haitiana. Mas esse progresso foi interrompido por uma revolta em 1791 que durou onze anos e foi organizada por negros influentes dentro do sistema escravocrata local. Toda a revolução foi organizada por líderes quilombolas, feitores e cocheiros numa cerimônia de domingo a noite em Bois Caiman.

A noite escolhida para o início da revolta foi a de 21 de agosto, o principal líder do movimento era Dutty Boukman e o objetivo era matar todos os fazendeiros franceses da colônia através de ataques planejados e simultâneos que acabaram sendo muito mais intensos no norte. Percebendo a situação, ingleses e espanhóis tentaram tomar as terras haitianas para si, mas suas tentativas foram frustradas, pois os negros resistiram e onze anos mais tarde conseguiram se proclamar independentes. Foi o primeiro caso de revolta negra a obter sucesso em terras americanas.

Embora pensemos que os líderes do movimento de independência pretendiam libertar todos os negros ,a realidade foi outra. Ao obter vitórias, os líderes revolucionários, antes escravos, se mostravam a favor da escravidão e evidenciavam que pretendiam somente passar o poder das mãos brancas para as negras. A ideia de libertar todos os escravos haitianos surgiu apenas em 1794 durante a Revolução Francesa.

O rei francês chegou a criar leis que amenizavam a situação de todos os escravos da colônia haitiana, mesmo assim os líderes da revolução se uniram ao governo espanhol, que era a favor da escravidão, a fim de conquistar poder para si próprios. Isso explica porquê muitos negros eram monarquistas (a favor do rei), pois eles acreditavam que o rei francês tentava melhorar seu modo de vida, mas era desrespeitado pelos senhores brancos aqui no solo americano.

Esse fato levou milhões de escravos a ficarem do lado do exército espanhol na luta contra os soldados republicanos franceses. O interessante é que existiram líderes do movimento de independência haitiana que realmente eram a favor da escravidão, como Jean Kina que perguntava aos negros que liderava se acaso lembravam-se o quanto eram mais felizes quando eram comandados por um rei. Jean chegou a negar sua carta de alforria por dois anos, pois realmente preferia ser um escravo.

Somente em 1803 o objetivo da liberdade foi alcançado e São Domingos passou a se chamar Haiti, um nome de origem indígena escolhido pelo líder Dessalines. Mas o território foi fragmentado em duas partes e o norte acabou sendo governado por um rei negro, ex-escravo e líder do movimento, Henri I. Henri governou com trajes e pompa dignos de um grande rei europeu, mandou construir palácios e concedeu cargos de nobreza como duque, conde e visconde, além disso torturava e perseguia os negros que insistiam em viver nas suas próprias fazendas de maneira independente, a regra era trabalhar nas grandes fazendas de cana-de-açúcar, café ou algodão da época escravocrata.

Para obter mais informações acerca dos líderes negros que levaram à independência do Haiti, confira o livro Guia Politicamente Incorreto da América Latina de Leandro Narloch e Duda Teixeira.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Símon Bolívar, descolonizador ou ditador?

(Retrato de Símon Bolívar, autoria desconhecida)

Símon Bolívar até hoje é uma das personalidades americanas mais conhecidas mundo a fora. O venezuelano, filho de espanhóis (criollo), foi herdeiro de grandes propriedades agrícolas que resolveu proteger das garras espanholas, para isso iniciou um processo de descolonização no século XIX que durou onze anos e pretendia inicialmente libertar do império espanhol o território de seis países americanos. 

Sua iniciativa era ousada, pois, até então, o único país americano que havia conseguido se libertar de seus colonizadores europeus era os Estados Unidos da América que, ao se tornar independente da Inglaterra, se tornou uma República Democrática. Bolívar ao descolonizar as terras da Venezuela, Colômbia, Equador e Panamá se tornou presidente dessas terras, mas não obteve grande sucesso.

Assim que assumiu o posto de presidente dessas nações recém criadas, Bolívar convocou o Encontro de Panamá com a intenção de transformá-las em uma única nação que seria governada por ele com mãos de ferro, o que não combinava com seu discurso libertador. Felizmente sua vontade não funcionou, pois ao que tudo indica, ele pretendia governar toda a América do Sul de maneira ditatorial.

Em 1813 já demonstrou que queria uma monarquia americana mesmo afirmando ser liberalista e iluminista, pois declarava que a herança da dominação espanhola e a grande mistura de raças presentes nas terras americanas impossibilitavam um governo democrático e republicano. Em seus discursos, Bolívar deixava claro que temia uma pardocracia (governo pardo composto por mulatos, negros livres, índios e mestiços):

"Estou convencido do tutano dos meus ossos que a América
só pode ser governada por um despotismo hábil."
(Símon Bolívar)

Karl Marx relatou cinco fugas covardes de Bolívar durante as batalhas de independência, o respeitável alemão enxergava Símon como um egoísta despótico. Por outro lado, o ditador italiano Benito Mussolini admirava as ideias bolivarianas. Além disso o atual presidente venezuelano, Hugo Chávez, usa a imagem de Bolívar como libertador americano para fortalecer seu governo, negando friamente todo o racismo e preconceito de Símon:

"A única coisa a fazer na América é ir embora."
(Símon Bolívar)

E você? Acredita que Símon Bolívar foi vilão ao querer comandar sozinho as terras americanas ou mocinho por ter libertado-as das mãos dos colonizadores espanhóis? Caso precise de  mais informações pra formar sua opinião acerca desse personagem polêmico consulte o livro Guia Politicamente Incorreto da América Latina escrito por Leandro Narloch e Duda Teixeira.

Formule sua opinião e comente esse post. Até mais!

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Motivos para não ostentar uma camiseta estampada com Che Guevara


A imagem acima é, sem dúvida alguma, uma das mais conhecidas em todo o mundo. Motivos para tal popularidade não faltam, afinal esse é o rosto de uma das figuras mais polêmicas de toda a história, Che Guevara. O líder guerrilheiro foi um dos homens mais determinados, sonhadores, destemidos e dispostos a alcançar seus objetivos, de quais se tem notícia.

O problema é que seus desejos não tinham limites e foram impostos sob todo o povo cubano sem dó nem piedade. Junto a Fidel e Raul Castro, Che se declarou anticapitalista frente a um retrato do ditador russo Stalin e esteve lado a lado de Fidel nos discursos democratas, anticomunistas e pluripartidários que utilizaram para retirar o presidente Fulgêncio Batista do poder cubano conquistando o apoio das classes alta e média, como o da poderosa família Bacardi.

Assim que assumiram o poder da ilha cubana, Che e seus companheiros demonstraram fazer exatamente o contrário do que haviam prometido em seus depoimentos calorosamente justiceiros, implantando um governo ditatorial e perseguidor que levou artistas, hippies e roqueiros a fugirem de Cuba, muitos deles ainda não conseguiram o direito de retornar a seu país natal.

Che adotou a política da tabula rasa criada pelos iluministas franceses que afirmavam que todo homem podia ser moldado e resolveu modelar os jovens a seu gosto, tornando-os peças de seu regime: obedientes, trabalhadores submissos, disciplinados e alistados forçadamente ao exército nacional. Aqueles que não se encaixassem a esse padrão nacionalista seriam encaminhados para campos de trabalho forçado aonde poderiam ser salvos, entre eles estavam gays, católicos, testemunhas de Jeová, candomblés, alcoólatras e portadores do vírus HIV.

Isso é apenas uma parte das atrocidades cubanas executadas a mando de Che Guevara que não escondia de ninguém o fato de considerar o ódio um sentimento nobre e que não hesitaria em sacrificar Cuba nuclearmente afim de frear o capitalismo norte americano. Aos poucos Che arrasou a economia da próspera ilha americana através da estatização de empresas e expulsão de investidores estrangeiros, o consumo de carne despencou assustadoramente, por exemplo.

Para mais detalhes acerca da face negra de Che Guevara você pode consultar o livro Guia Politicamente Incorreto da América Latina de Leandro Narloch e Duda Teixeira, mas não esqueça de ler outras obras para verificar o que o revolucionário implantou de positivo em Cuba, como o alto desenvolvimento nos setores da saúde e da educação.

Até mais.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Ser latino americano

(Capa do livro divulgada em http://www.ecclesiae.com.br)

O livro intitulado Guia Politicamente Incorreto da América Latina escrito por Leandro Narloch e Duda Teixeira introduz seu conteúdo com colocações bastante críticas a respeito do sujeito latino americano.

Os autores explicam que sequer o adjetivo "latino americano" foi criado pelos latinos. Esse termo teria sido criado por Napoleão Bonaparte durante o tempo que buscou uma aproximação com os americanos. O termo latino viria do fato dos americanos terem uma língua originada do Latim, assim como os franceses do famoso general.

Até este ponto tudo bem. O problema surge quando resolvem dar a receita para ser um legítimo latino americano. Neste ponto os autores se excedem e lançam seus conterrâneos numa homogeneidade assustadora. Afirmam que para ser um latino americano de verdade é simples, basta: lamentar o passado, abusar da cultura local, condenar o capitalismo, denunciar a dominação externa e cultuar heróis perversos.

Ora, quer dizer então que os latino americanos não passam de sentimentalóides reclamões? E todos os motivos que levaram essas pessoas a desenvolver essas características defensivas? Vamos ignorar? É triste assistir dois latino americanos que estão se rebelando contra os seus simplesmente para ganhar sucesso. Escrevem sua versão histórica sensacionalista sem se preocupar com as consequências disso.

Acho que podemos sim comprar o livro (tanto que possuo um), mas devemos lê-lo com muita precaução. Não podemos esquecer que ambos os escritores não são historiadores e produziram o livro focando somente um lado dos fatos. Acho importante alertarmos principalmente as crianças e adolescentes para que eles façam uma leitura adequada deste tipo de material.

Conheça a obra e deixe sua opinião nos comentários abaixo. Até mais!

sábado, 2 de março de 2013

Incas

(Ruínas da incrível cidade inca de Machu Picchu)

O império Inca surpreendeu o mundo. Formado na região sul do Peru por volta do século XIII a partir da capital Cusco acabou se espalhando pelas terras que hoje compreendem o Peru, Colômbia, Chile e Argentina. O imperador era adorado como filho do sol e chamado de Sapa Inca. Ele era responsável pelas 12.000.000 de pessoas que chegaram a viver no império, sendo que 7.000.000 delas pertenciam a 100 povos diferentes. 

O Sapa era a pessoa mais importante da sociedade inca. Como era considerado filho do Deus Sol ele devia se casar com uma de suas irmãs, filha da Deusa Lua. Quando o imperador falecia era ela quem escolhia o filho mais adequado para ocupar o cargo de imperador de seu pai. Mas os Sapas podiam ter quantas esposas quisessem, alguns tiveram centenas. Só que quando eles morriam elas deviam ser sacrificadas junto com todos os empregados particulares do imperador para serem enterrados com ele.

Para fazer parte desse povo existiam três regras: não roubar, não mentir e não ser preguiçoso. Mas todos os que viviam lá recebiam terras pra plantar conforme o número de integrantes da família, assim ninguém passava fome nem dificuldades. Em troca deveriam trabalhar alguns dias de graça para o governo, era uma espécie de imposto. Todos os habitantes podiam contar com a defesa de um exército bem treinado e com o apoio de um calendário de 365 dias divididos em 12 meses indicando a época certa para o plantio de cada coisa.

E não era só isso. Os moradores também podiam desfrutar de mais de 23.000 km de estradas calçadas com pedras resistentes. Lá passavam várias caravanas de lhamas facilitando a troca de produtos com outros povos. Por esses caminhos também circulavam os Chasques, mensageiros altamente treinados que levavam recados do governo correndo rapidamente. Como não dominavam a escrita todas as mensagens eram decoradas e transmitidas de chasque para chasque até chegar ao seu destino final.

O império era muito organizado e contava com mais de 70 cidades. Para facilitar o controle de tanta gente ele foi dividido em 4 partes e cada uma tinha um Quipumayaque, homem responsável por fazer os nós de corda que registravam tudo que existia naquela parte do império. Esse conjunto de cordas foi uma importante invenção de contagem e registro, eram os Quipus

A engenhosidade inca também os levou a criar um sistema de irrigação inovador. Eles construíram terraços em formato de escadas para poder plantar nas montanhas. Um sistema de irrigação trazia a água das chuvas da ponta da montanha até o primeiro andar de forma automática. Eles subiam para adubar a terra com excrementos de aves marinhas e morcegos, depositavam as sementes, desciam e só voltavam meses depois para colher os vegetais. Esse tipo de plantação foi chamada de andeime

Graças a esses terraços as terras altas eram aproveitadas para a agricultura. Assim as plantas não ficariam tortas e nem haveria trabalho para escalar os montes. Os andeimes foram construídos até mesmo na Cordilheira dos Andes e eram utilizados na produção de milho, feijão, algodão, tomate, pimenta, abacaxi e mais de 200 tipos de batata. Os animais criados eram as lhamas e alpacas que forneciam carne, leite e lã além de servir para carregar algumas coisas.

Os conhecimentos de construção eram apurados. As casas foram construídas com blocos de pedra de até 7 metros de altura encaixados perfeitamente sem qualquer tipo de massa para grudá-los. Nem uma folha de papel é capaz de entrar no espaço entre as pedras. O teto das construções era feito com palha trançada e oferecia um abrigo seguro até mesmo contra a chuva. 

A segurança da população era confiada a diversos deuses, mas também ás Virgens do Sol, mulheres escolhidas por sua beleza e nobreza para morar nos templos durante toda a sua vida. Essa moças eram educadas em conventos, deviam aprender a tecer lã fina e a rezar diariamente para o Deus Sol afim de manter o povo inca protegido. Embora isso não tenha funcionado no século XVI quando foram descobertos e exterminados pelos espanhóis liderados por Francisco Pizzaro.

Engana-se quem acreditar que os espanhóis é que trouxeram a violência para o império Inca, antes deles as pessoas já deviam se comportar muito bem, pois as punições aplicadas pelo imperador iam de tortura e apedrejamento até três dias confinado em calabouços com cobras e onças. Sendo assim, não é de se estranhar que os soberanos incas contratassem amautas (filósofos oradores) para espalhar histórias gloriosas a seu respeito pelo território a fim de intimidar a população e possíveis adversários tribais.

Mesmo após morrer, a influência dos imperadores incas era tamanha que seus corpos eram mumificados (embalsamados e congelados), bem vestidos, carregados em liteiras para passear e visitar entes queridos, além de participar das reuniões políticas e conselhos de guerra. Muitas pessoas se auto-sacrificavam de bom gosto para ajudar o imperador a acalmar os deuses, vestiam-se e enfeitavam-se ricamente e caminhavam rumo ao discurso do sacerdote que lhe arrancaria o coração ainda vivo, acreditavam que dali iriam morar com o Deus que haviam homenageado.

Conheça melhor esse povo misteriosamente fascinante lendo o livro Guia Politicamente Incorreto da História da América Latina de Leandro Narloch e Duda Teixeira e aproveite para assistir aos vídeos da Série Grandes Civilizações ou a vídeo-aula que seguem:




quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Histórias íntimas

(Capa da obra)
O livro Histórias íntimas: sexualidade e erotismo na história do Brasil é uma obra produzida pela renomada historiadora brasileira Mary Del Priore. A autora é conhecida por se preocupar com novas abordagens historiográficas partindo dos pequenos acontecimentos para enfatizar assuntos inéditos. Nesse livro ela percorre a intimidade dos lares brasileiros revelando detalhes curiosos acerca da vida a dois no país. Confira um pequeno resumo:

Da colônia ao império

Quando o Brasil ainda ocupava o posto de colônia portuguesa a situação das casas era precária. Os lares não ofereciam qualquer tipo de privacidade uma vez que nem as portas dos mais ricos possuíam fechaduras.  Nosso país era muito atrasado em relação a Portugal. Das boas maneiras europeias a única que era respeitada aqui nos trópicos era a proibição de andar nu, tanto dentro quanto fora de casa.

Nessa época (idade moderna) a igreja católica proibiu as pessoas de tomarem banho nuas. Tanto homens quanto mulheres precisavam se banhar com os calções e camisolas que usavam como roupa de baixo. Já os religiosos foram definitivamente proibidos de lavar seus corpos através do Código Justiniano. Por causa dessa decisão o batismo foi alterado. Antes todo o corpo era imerso em água, essa prática foi trocada pela benção somente na testa como é feita até hoje.

Imagine o cheiro desses corpos mal limpos. A higiene praticamente não existia no Brasil até o século XIX. Algumas mulheres gostavam de passar almíscar nas partes íntimas afim de evitar o mal cheiro, mas os homens reclamavam. Pediam para elas deixarem sujo antes da relação sexual, se sentiam mais atraídos dessa maneira. No século XVIII várias mulheres pediram divórcio por não suportarem o odor.

Pra piorar a situação os penicos passavam a semana inteira sendo carregados dentro do quarto mal varrido e sem janelas. O único conforto vinha das substâncias odoríferas que eram queimadas pela casa para espantar os mosquitos e o cheiro ruim. Nessas condições até os casais mais ricos preferiam manter suas intimidades ao ar livre. No meio do mato se preveniam de cheiros ruins e olhares indiscretos

Durante o sexo os casais não tiravam as roupas. A igreja regulava até os casados afirmando que o ato servia somente pra procriação e por isso não devia envolver carícias. Os católicos tinham dias e posições certas para se relacionar. A mulher por cima como dominante ou de costas como uma fera era estritamente proibido. Elas não deviam sentir prazer porque eram consideradas homens defeituosos. 

Em 1559 o clitóris feminino foi definido como um pênis mal formado. Dessa maneira as mulheres eram desprezadas ao máximo e serviam somente para gerar filhos. Os homens se atraíam por mulheres bem cobertas que mantinham seu pudor, embora não escondessem que durante os séculos XVIII e XIX a robustez e a morenice das indígenas fossem hipnotizantes. 

As damas decentes depilavam as partes íntimas, já as prostitutas zelavam por bastante pelos acreditando que eles eram atraentes. As mulheres negras recebiam palavrões durante as intimidades, já as brancas desfrutavam de alguns galanteios. As brancas serviam pra casar, as mulatas pra fazer sexo e as negras pra trabalhar. 

Os homens deviam ter prazer porque eram responsáveis pela procriação humana. Entre os séculos XVI e XVIII muitos eram submetidos a exames públicos de ereção. Mesmo contrariando os católicos os viajantes usufruíam de muita sensualidade nas terras que aportavam na Ásia e América aonde conheceram diversos afrodisíacos poderosos como o chocolate que despertava o prazer no século XVII.

A censura católica só fez aumentar substituindo o chocolate pelo café. Uma bebida quente que provocava o trabalho e o progresso. O amor erótico era tratado como uma doença desde o século XVI. As pessoas eram curadas até com sangrias porque acreditava-se que o sexo abreviava o tempo de vida e emburrecia os praticantes ao perderem muitos nutrientes nas secreções.

Secreções que só podiam ser feitas dentro do útero, fora deste local era considerado um pecado imperdoável. Falando assim até parece que os religiosos eram incorruptíveis, mas a história brasileira revela que a Reforma Católica demorou muito pra se instalar no país. Os casos sexuais de padres eram muito mais que comuns e ocorriam até nos confessionários.

As igrejas do século XVIII eram mal iluminadas e repletas de altares laterais que ofereciam um ótimo abrigo para práticas sexuais. O apagar das velas na quinta feira santa se transformava num grande entrelaçamento de corpos em busca de prazer. Afinal quem iria suspeitar deste local? 

Um século hipócrita

Até o século XIX os escândalos amorosos da família real eram disfarçados, mas com a entrada de Dom Pedro I no poder a situação mudou. Casos fora do casamento se tornaram corriqueiros e nada sigilosos. A sociedade reprimira o sexo, mas era absolutamente obsecada por ele. Adultérios de uma noite ou de anos a fio (concubinatos) viraram moda no Brasil.

Os viajantes que conheciam nossas terras apontavam os repugnantes vícios brasileiros. Denunciavam as traições afirmando que as amantes conhecidas como teúdas ou manteúdas eram moda. Lamentavam a situação das esposas que se casavam jovens demais e por isso acabavam definhando rapidamente. As pobres consortes ainda eram obrigadas a educar os filhos ilegítimos do marido.

Após o casamento as mulheres não podiam manter sua vaidade, deviam se vestir somente de preto e abandonar o uso de perfumes, roupas novas, penteados elaborados e fitas no cabelo. Sem permissão para sair de casa por volta dos trinta anos de idade já eram idosas sofrendo com a obesidade. Entretanto muitas moças não conseguiam casar-se numa terra de poucos homens.

Para essas jovens o destino podia ser generoso se aceitassem o posto de manteúda de um rico fazendeiro, banqueiro, comerciante, etc. Esses homens poderosos mantinham várias amantes desse tipo e elas eram respeitadas na sociedade quando mantinham a discrição necessária. Era uma maneira de subir na vida.

Publicamente somente as mulheres eram obrigadas a ser fiéis, mas as ricas sempre arranjavam amantes jovens para satisfazê-las secretamente, já as pobres optavam pelo divórcio. Resumindo, pular a cerca era mais que comum, e a culpa era de quem? Das pessoas negras e mulatas que provocavam o desejo carnal desviando os brancos da conduta fiel.

Na época a pena para adúlteros era a morte enquanto que aos amantes cabia o degredo. Entretanto, na prática, as pessoas nunca eram condenadas por suas aventuras sexuais. Tanto que até mesmo entre os religiosos era comum conceber filhos sem receber nenhum tipo de punição. Alguns jornais como A Regeneração da ilha de Florianópolis denunciavam essas situações luxuriosas.

Com a chegada de Dom Pedro II ao governo o Brasil foi invadido pelas novidades francesas. As novas tendências eram a dominação masculina representada pelos bigodes chamativos e a consequente fragilidade feminina sustentada pelos espartilhos, anquinhas, penteados suntuosos e palidez exagerada acompanhados de mãos, pés e nucas provocantes á mostra.

O culto a mulata faceira ganha força, mesmo sendo uma figura pobre. Os médicos começavam a alertar que o útero era capaz de dominar o cerébro criando verdadeiras loucas por sexo conhecidas como ninfomaníacas ou histéricas. Essas mulheres recebiam tratamento de loucura e tinham seus desejos acalmados por médicos para evitar futuras traições ao marido.

Os mesmos médicos souberam aproveitar seus conhecimentos eróticos para escrever livros para leitores homens. No fim do século XIX os "livros para ler com uma mão só" circulavam pelo país repletos de histórias e desenhos picantes que terminavam com a morte da mulher fogosa servindo como lição de moral. Podemos considerar esses livros como as primeiras revistar pornôs do Brasil.

A preocupação médica aumentava junto com a disseminação dos prostíbulos. Esses locais ficaram populares por receber estrangeiras, sobretudo francesas, repletas de sensualidade dispostas a ensinar as delícias sexuais aos moços virgens. Acreditava-se que as prostitutas mantinham a saúde de casamento, elas podiam ser refinadas (cocotas) ou pobretonas (polacas).

Os médicos pediam para os homens economizarem o esperma indicando no máximo três relações por semana para os jovens, uma a cada três semanas para os que somavam uns cinquenta anos de idade e nenhuma para os mais velhos. A masturbação era vigiada e punida severamente. A esterilidade era pregada como uma pesadelo. Tudo isso para manter a força do corpo.

De pouco adiantaram os apelos médicos. Tanto que os casos homossexuais aumentaram e os "frescos" eram vistos como doentes de espiríto que necessitavam de tratamento moral. A sífilis se alastrou pelo Brasil, o responsável era o homem e um dos tratamentos indicados era a relação sexual com mulatinhas virgens. Acreditavam que elas limpavam o sangue do homem infectado.

Primeiras rachaduras no muro da repressão

Até o século XX os calções e camisolas de dormir possuíam aberturas para o ato sexual, assim o casal  não precisava tirar a roupa na hora de dar continuidade á família. Entretanto o novo século chegou, a República instalada no fim do XIX trouxe muitas novidades que agilizaram o cotidiano: esportes, ginásios, teatros, danças, cinema, fotos, espelhos, exibição de corpos, entre outras coisas.

Com tantas mudanças as pessoas acabaram mudando também a sua maneira de pensar. Quando começou a Primeira Guerra Mundial por exemplo, as mulheres tiveram que trabalhar e precisavam de roupas confortáveis, por isso abandonaram os espartilhos e partiram pra cinta de borracha (recém descoberta). O metal usado nas armações dos vestidos seguiu pra produção de armas. Em 1913 o sutiã foi criado nos Estados Unidos da América.

E não foi só a roupa que mudou no universo feminino. A menstruação deixou de ser considerada uma doença e os paninhos usados para controlar o sangue foram deixados de lado graças a invenção de protetores de malha ou borracha. Aos poucos a sensualidade e a higiene viravam moda. Essa mulher moderna: magríssima, alegre, provocante e com cabelos curtos surgiu no teatro de revista por volta de 1920. Uma das precursoras no Brasil foi a inesquecível Dercy Gonçalves.

As tendências deixaram de vir de Paris. A moda agora vinha dos estúdios de Hollywood. As pessoas queriam ser como os atores dos filmes americanos: jovens e magros. Em 1908 foi lançado o primeiro filme pornô da história, mas possuir ou assistir um filme desse gênero se tornou crime sujeito a prisão. Em 1920 nos Estados Unidos da América foram criados quadrinhos com histórias pornôs. Quem eram os personagens? Pasme: Betty Boop, Mickey Mouse e Marinheiro Popeye.

A fotografia acabou gerando a pornografia no início do século XX em Paris. Já na Inglaterra os fotógrafos optavam por retratar as pessoas nuas em situações cotidianas como estender roupa no varal, era o naturismo tentando defender que o nu era natural e puro. Na capital, Rio de Janeiro, circulou entre 1900 e 1916 o jornal Rio Nu.

Era um verdadeiro sucesso entre os homens. A redação não possuía jornalistas porque era escrito por leitores. Continha piadas, cancões, poemas, caricaturas, anúncios de remédios, concursos de prostitutas e jogos de azar, tudo relacionado ao sexo para saciar desejos carnais que os maridos não podiam manter com suas esposas. Pela sociedade alguns médicos ousados começaram a sugerir o prazer simultâneo ao casal, era o super-matrimônio.

Em contra partida o governo tentava manter o pudor a todo custo. O presidente Vargas se uniu a Igreja para reforçar a necessidade do casamento. Os concubinatos viraram crime. As mulheres de família preservavam a virgindade para a noite de núpcias. Em 1930 a educação sexual se tornou uma necessidade para evitar doenças entre os homens e preparar as mulheres para a gravidez. As escolas possuíam salas aonde se verificava a higiene íntima dos estudantes.

Olhares indiscretos

Até o século XIX a Igreja não recriminava o aborto de fetos masculinos com até 40 dias e femininos com até 80 dias, a menos que fosse fruto de uma relação extra-conjugal. Os religiosos afirmavam que neles ainda não existia alma. Por outro lado o governo brasileiro via essa prática como um atraso social considerada crime desde 1890.

A primeira década do século XX manteve essas e outras contradições. O exagero de festas ritmadas exibiam mulheres provocantes, sobretudo no carnaval, mais conhecido como bacanal. Nessas ocasiões os desejos afloravam provocando repulsa nos conservadores. Mas aos poucos surgia um desejo ainda mais repugnante: o amor por meninos. Os pederastas (pedófilos) ganhavam espaço..

Pesquisas apontavam que quanto mais velho fosse o abusador, mais jovem era sua vítima. A medicina afirmava que a pedofilia era causada por embriaguez ou traumas passados. Só em 1915 o governo brasileiro sancionou uma lei contra o abuso de menores (jovens até 21 anos na época). Felizmente esses homens eram minoria, os bons pais de família começavam a entrar em alta.

Com o fim das guerras os homens largavam os duelos para se tornarem burgueses educados, trabalhadores e fortes. Esse novo modelo masculino devia ostentar cicatrizes de herói, praticar esportes e quem sabe até fisioculturismo. Eram os trabalhadores úteis ao país, um esteriótipo vindo de Hollywood. Do outro lado estavam os "almofadinhas", homossexuais que não construíam família para sustentar o Brasil.

O governo lhes tratavam como criminosos, anormais, bodes expiatórios durante batalhas. Eram alvo de aplicações de insulina, internações e cirurgias de troca de testículos numa tentativa de mudar sua orientação sexual. Entre as décadas de 1930 e 1960 esses jovens buscaram refúgio em pequenos apartamentos nas cidades movimentadas. Lá as "bonecas" podiam receber seus "bofes" em relativo segredo.

As mulheres, com o fim da 2ª Guerra Mundial, deviam voltar para sua casa onde cuidavam de suas famílias. Os jornais da época diziam como elas deviam se comportar. Precisavam ser ótimas mães e cozinheiras. Deviam manter a paciência, ser doce e meiga, tratando seu marido com compreensão e jeitinho. Entrar num carro com um homem só era permitido após o casamento.

O cinema espalhava o desejo por um carro, mas também pelas lambretas, beijos e carícias. Em 1950 o desquite se tornava comum mesmo que um segundo casamento fosse proibido. Aos poucos a sociedade começava a tolerar os casais que não viviam um casamento oficial. O prazer começou a ser vivido junto com o amor. E a igreja? Esta agia como se jovens do interior e idosos não tivessem pecados.

As transformações da intimidade

As décadas de 60 e 70 trouxeram uma revolução sexual, era o direito ao prazer. A higiene bucal trouxe o beijo a relação sexual. A chegada do anticoncepcional, do rock e do movimento hippie empurravam as barreiras sociais. As festas estudantis, as boates e os motéis se tornam uma rotina rondada de palavrões. A saúde e a beleza começavam a se democratizar ao mesmo tempo em que a cultura de massa era produzida pelas televisões trazidas pelo milagre econômico de 64.

Artistas começavam a se expressar livremente e por isso mesmo foram vítimas da repressão. As pornochanchadas (comédias picantes) ganhavam a cidade de São Paulo e contavam com artistas do nível de Vera Fischer e Antonio Fagundes. Acreditasse que o governo as tolerava porque acabavam distraindo o povo que deixava passar despercebidos os atos de repressão do Estado. Mas aos poucos os filmes brasileiros foram perdendo seu público para os pornôs explícitos vindas do exterior.

A novidade vinda da França era o topless, perseguido cruelmente. Nas praias de São Paulo e Rio de Janeiro os homens criticavam até mesmo as moças moderninhas que perdiam toda a sensualidade ao exibir o corpo nos grandes biquínis da década de 60. A mulher independente de meados de 70 trabalhava fora de casa sem sentir vergonha por isso, mas acabava se tornando alvo de  um marido enciumado. Ele cometia agressões e muitas vezes chegava ao suicídio sendo perdoado pela lei, pois estava defendendo sua honra.

Só em 1980 foram criadas as primeiras instituições voltadas a proteção das mulheres. As prostitutas começavam a lucrar em hotéis, em atendimentos a domicilio e até na beira das rodovias paulistas. Em 1987 organização um encontro para exigir seus direitos que até hoje não são atendidos. A face mais cruel da prostituição vem dessa época e ainda não tem solução: a venda de meninas pobres.

A pornografia infantil surgida nessa época e hoje ocupa o 3º lugar no ranking mundial. Perde somente para os Estados Unidos da América e Rússia. Um mercado que leva muitas crianças a sofrerem abuso sexual. O IBGE aponta que de cada 4 estupradores brasileiros, 3 são pais e 1 é padrasto da vítima.

Em 1975 veio a tona a primeira troca de sexo realizada no país. Ela havia sido realizada em 1871 e o médico acabou preso por um período a contra gosto de seu paciente. Só em 1997 esse tipo de alteração foi permitida e em 2008 passou a ser realizadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Um problema maior estava chegando para atormentar a saúde pública: a aids.

A doença chegou aqui por volta de 1980. Gays, drogados e artistas foram os culpados por essa calamidade. Por causa dela a abstinência, a monogamia e o corpo gorducho voltaram á moda. Só no ano de 2000 o povo conseguiu perceber que é possível viver com a doença, até então a pessoa contaminada estava designada a morte.

Desde 1980 o número de casamentos no país diminui, enquanto que o de divórcios aumenta sem parar. O Brasil está fadado ao fim das grandes famílias. Os homens estão apresentando crises de baixa estima. O individualismo caiu no gosto popular e esse narcisismo está construindo família de uma única pessoa. Uma realidade chocantemente rápida.

Para finalizar convido você a refletir sobre as alterações que os brasileiros sofreram em sua vida íntima nesses 500 anos de história. Leia a obra integralmente e formule sua opinião: como será nossa intimidade daqui a 20 anos? É um bom desafio pensar nisso não concorda? O livro vai lhe ajudar, além de ser uma leitura atrativa e leve. Confira.


quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Oradores Barrigas-Verdes, a arte de falar bem


             
(Acervo pessoal: capa da obra)
(Acervo pessoal: contracapa autografada)

O livro Oradores Barrigas-Verdes: a arte de falar bem, foi redigido por dois autores renomados: João Alfredo Medeiros Vieira e Marcos Roberto Rosa. Publicada pela editora Ledix no ano de 2012, o objetivo da obra é comentar sobre a arte de falar bem (a oratória) aproveitando a oportunidade para apresentar os maiores oradores catarinenses. O texto foi dividido em duas partes, cada uma delas produzida por um dos autores. Vejamos as colocações de cada escritor:

João Alfredo Medeiros Vieira

Para iniciar o livro João Alfredo enfatiza que seria impossível apresentar todos os oradores importantes de Santa Catarina numa única obra, desta maneira deixa a sugestão de novos trabalhos sobre o assunto. O autor considera a Oratória algo inseparável da História, uma vez que nasce e se desenvolve da última, principalmente em tempos de crise durante discursos jurídicos e religiosos. Exemplo: foi durante a Revolução Francesa que surgiram alguns dos maiores oradores de todos os tempos.

Menciona o caso do surgimento das primeiras universidades durante a idade média lembrando o florescimento oratório nessa época, entretanto afirma que nenhum tipo de oratória é mais arrebatadora para ele do que a política. Acredita ser possível entender o meio e a época em que a pessoa estava inserida realizando uma análise de sua oratória. Porém alerta: nenhuma oratória, assim como a escrita, consegue alcançar êxito sem que exista o conhecimento pleno da língua em que será executada. 

Após essas colocações o autor começa a apresentar os oradores que elegeu para homenagear nesse livro.  Entre os homenageados figuram pessoas das mais variadas áreas profissionais: parlamentar, cívica, forense, acadêmica e sacra. João Alfredo inicia o texto sobre cada orador fornecendo uma breve biografia e segue expondo algum discursos que a pessoa em questão proferiu. Muitos trechos dos discursos compunham o próprio caderno de anotações do escritor.

Na sessão de oradores cívicos foi incluído um importante batistense, Dr. Willian Duarte da Silva. Advogado e empresário do ramo hoteleiro, Dr. Willian teve papel fundamental como orador durante o processo de emancipação do município de São João Batista. Logo, devemos muito á ele. Entretanto, apesar de tantos oradores competentes citados no livro o autor termina com um desabafo declarando que a oratória catarinense está em decadência, principalmente pelo emprego da tautologia.

A tautologia, para quem não conhece, é a repetição excessiva de idéias utilizando termos diferentes em cada colocação, um erro bastante comum. Ao falar dessa crise oratória no estado, João Alfredo deixa evidente sua capacidade crítica como leitor voraz, uma característica tão visível quanto sua religiosidade.

Marcos Roberto Rosa

O segundo autor do livro inicia sua colocação explicando que a Oratória (arte de falar bem) fazia parte da Retórica (apresentação de discursos) na Grécia e Roma antigas. Explica também que os latinos, por influência romana, utilizam até hoje uma oratória floreada, muito mais bonita do que repleta de conteúdo, um problema sério a ser superado por países como o Brasil.

Marcos Roberto alerta que um bom orador deve tomar muito cuidado durante seu discurso para manter seus gestos suaves, voz agradável e vibrante, postura firme, olhar sobre todos os presentes, limitar seu assunto, intercalar exemplos e imagens, usar palavras familiares aos ouvintes ao mesmo tempo em que trabalha seu semblante e respiração.

O autor afirma que qualquer pessoa com capacidade de fala pode se tornar um grande orador, só que para isso acontecer precisa estar disposto a exercitar e praticar sua memória, adaptabilidade, inspiração, entusiasmo, determinação, observação, expressividade, síntese, ritmo, voz, vocabulário, expressão corporal, naturalidade e, principalmente, seu conhecimento.

Continuando a obra o escritor comenta sobre a importância de Aristóteles para a Retórica ao introduzir nela a persuasão. Explica que um discurso pode persuadir os ouvintes de três maneiras: pelo exemplo do orador (Ethos), pelo despertar das emoções do público (Pathos) e pela comprovação das idéias expostas com argumentos convincentes (Logos).

Para finalizar Marcos Roberto apresenta um exemplo de discurso riquíssimo. O texto é de João Alfredo Medeiros Vieira e foi pronunciado durante a recepção de Gilberto Callado de Oliveira na Academia Catarinense de Letras no dia 17 de abril de 2008. A anexação deste discurso comprova a admiração que Marcos Roberto sente pelo colega que escreveu o livro com ele, João Alfredo.

Encerro aqui meu singelo resumo sobre o livro Oradores Barrigas-Verdes: a arte de falar bem. Peço desculpas aos autores por algum eventual erro. Tudo que escrevi foi pensando na maneira de divulgar ainda mais essa produção tão sábia. Aproveito para comunicar que gostaria de ter percebido uma interação mais rica entre os escritores.

Gostaria de agradecer ao Dr. Willian por ter me presenteado com essa obra tão rica que com certeza enobrecerá meu trabalho daqui pra frente, tanto como professora quanto como escritora. Muito obrigada!

Não posso finalizar sem antes indicar a leitura completa do livro á todos que desejam aperfeiçoar sua oratória e conhecer melhor o tema. Até mais!